Entre os anos 1960 e 1980, o Rio de Janeiro tinha uma categoria de restaurantes que esteve muito na moda. Eram as uisquerias, como se denominavam, endereços que estavam espalhados do Centro à Zona Sul.

Eram casas com perfis semelhantes. Era um tempo em que pouco se bebia vinho nesses lugares, onde sempre reinaram o chope e o destilado que batiza essa categoria de restaurante tão identificado com a cultura carioca, onde também faziam sucesso os schnapps germânicos e nórdicos, como Steinhaeger.

De modo geral eram estabelecimentos com cardápio variado, com destaque para os pratos de bacalhau, de peixes e frutos do mar, além de um repertório de receitas que tinha tornedor, escalopinho e steak Chateaubriand.

Pescados eram o forte também por conta da origem dos sócios, geralmente espanhóis da Galícia e portugueses do Minho, duas regiões muito conhecidas por seus vinhos brancos e suas receitas de peixes e frutos do mar.

Também tinham em comum esses endereços tão cariocas a fama de servir ótimos pastéis, praticamente indispensáveis para começar as refeições.

O Leblon foi o epicentro desse tipo de estabelecimento. Eram restaurantes de bairro, com cardápios grandes e frequentados por famílias e casais, grupos de amigos e toda uma clientela fiel. Gente que volta sempre, muitas vezes semanalmente, pessoas que conhecem os garçons pelo nome, onde alguns até podiam pendurar a conta, na confiança.

Aos poucos esses lugares tão identificados com o Rio foram fechando as portas. Há muitos clientes saudosos de esquinas como o Le Coin, que chegou a ter duas casas no Leblon, a última a fechar as portas ficava ali onde está hoje o Filé do Lira, esquina de Ataulfo de Paiva com a João Lira.

Depois de fechar as portas durante a pandemia, o Alvaro’s chegou a voltar a funcionar no mesmo local, no fim de 2023. Mas não conseguiu nem completar dois anos aberto. O menu e o ambiente, assim como a equipe, estavam descaracterizados.

Dessa turma restou um: trata-se do Degrau, que continua fiel às suas raízes, servindo comida farta, de qualidade, nessa mistura de Rio de Janeiro com o norte da Península Ibérica, algo tão carioca quando o assunto é a gastronomia típica desta Cidade Deliciosa de São Sebastião.

Fundado em 1963, o Degrau mantém o seu cardápio característico, com os pastéis sendo itens praticamente obrigatórios.

Os pratos do dia são servidos em porção individual, no menu executivo dos dias úteis, o que garante um bom público no almoço que reúne trabalhadores e aposentados do bairro, além de alguns turistas em busca de uma imersão no que é característico do Rio, e não exatamente o que está na moda.

A regularidade da cozinha é uma das marcas do Degrau. Quando peço pratos que eram os meus preferidos de sempre, como a língua ao Madeira, ou medalhões do mesmo modo, com guarnições que podem ser arroz à piemontese, purê de batatas ou creme de espinafre, eu sinto o mesmo sabor que marcou a infância e a adolescência.

O mesmo vale para o linguado à belle meunière, o polvo grelhado com ervas, servido com arroz de brócolis, e o bacalhau à lagareiro.

Estar ali é sempre um pouco uma viagem no tempo, para um Rio de Janeiro delicioso.

Com muita justiça o Degrau é o mais novo restaurante a integrar o grupo de lugares que ostentam o título de Patrimônio Cultural Carioca, dado recentemente pelo prefeito Eduardo Cavaliere, primeira casa a receber a honraria do jovem governante da cidade.

Como está escrito na distinta placa azul ‘Fundado em 1963 como “Progresso”, em 1970 tem seu nome alterado para “Degrau” endereço graças a um degrau na entrada do original que causava muitos tropeços. Este tradicional restaurante acolhe desde famílias do bairro à boemia artística e intelectual, madrugada adentro’.

Porém, “Madrugada adentro” é mais uma lembrança do que realidade. A casa fecha às 23h (ou à meia-noite às sextas e sábados).

Mas, o que importa continua: a comida de sempre, tão farta e deliciosa, os garçons alinhados de terno escuro e gravata, desses que abrem a porta e dão as boas-vindas aos clientes. Tudo como antigamente.

Ainda bem que ainda temos o Degrau. Um clássico do Rio de Janeiro que mora nos corações de muitos cariocas, há várias gerações.

Ia com meus avós e meus pais. E agora eu convoco a minha filha para conhecer esse lugar de tão boas lembranças familiares, de tão deliciosa comida, e de tantos e tantos bons momentos vividos, ontem, hoje e amanhã.

Viva o Degrau!!! Agora legítimo Patrimônio Cultural Carioca, coisa que já é há muito tempo.

Endereço:  Av. Ataulfo de Paiva, 517 - Leblon, Rio de Janeiro
Siga: @restaurantedegrau