Não demorou muito para o quibe e a esfirra deixarem a comunidade árabe para se incorporarem à dieta dos cariocas, na primeira metade do século passado. Os primeiros imigrantes libaneses e sírios começaram a chegar a partir dos anos 1980, num movimento que foi se intensificando conforme se esfacelava o Império Otomano, obrigando a população a procurar vida nova nas Américas.
No Rio, eles se estabeleceram principalmente na região que hoje conhecemos como Saara, que está na gênese da influência árabe na gastronomia carioca. Vem desse tempo o mais antigo representante dessa importante contribuição para a cultura alimentar do Rio de Janeiro: a Padaria Bassil abriu as portas em 1910, e desde então assa pitas, esfirras e afins, além de preparar outras especialidades do Levante, como arroz com lentilha e cebola frita, falafel, folha de uva recheada, manouche, além das pastinhas típicas, como coalhada seca, hommus tahine e babaganuj. Dizem que o forno a lenha, um dos responsáveis pela qualidade das esfirras, está aceso desde a inauguração. Fato é que esse é um ponto obrigatório no roteiro árabe no Rio, prova de quão antiga é essa influência.
Logo ao lado está o restaurante Sírio e Libanês, um clássico da categoria. Fundado em 1967 pelo libanês Jawad Salim Ghazi, ainda é um negócio familiar, que tem uma imensa vantagem gastronômica. Uma churrasqueira, que permite muitos preparos na brasa, o que faz muita diferença quando pedimos as kaftas de carne, bovina ou de cordeiro, ou o michuí, o que no Brasil passamos a chamar de churrasquinho, com a carne entremeada com tomate e cebola. Os combinados são boa opção para dividir, provando um menu mais completo. O Super Mix tem hommus, caftas, arroz com lentilha, tabule, repolho e folha de uva recheados.
Uma pena que, em 2021, o também vizinho na mesma Rua Senhor dos Passos fechou as portas, sucumbindo à pandemia. Uma pena.
Vida que segue, porque ainda existe El-Gebal. Essa é uma outra joia árabe no Centro do Rio, no coração do Saara (a “Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega”, fundada em 1962). Fica na Rua Buenos Aires, com o seu salão imponente, que – sem exagero – parece cenário de filme de época. Na casa do Tony Haddad, vou contar para vocês, encontramos um dos serviços mais atentos e simpáticos da cidade, com garçonetes graciosas que cuidam de nós de modo diferente, pode acreditar. Ali, o rodízio é a melhor pedida para provar um pouco de tudo o que conhecemos da comida árabe carioca: pastas (coalhada, hummus e babaganuj – muito defumado, muitos consideram o melhor da cidade), quibes, esfirras, tabule, cordeiro com especiarias e arroz com lentilha e cebola frita, kaftas etc – fora os doces, sempre especiais, para comer alguns. Mas, também é um lugar para provar pratos mais raros, como esse músculo com trigo à moda árabe e a salada da casa.
Numa galeria em frente ao metrô do Largo do Machado encontramos outro lugar emblemático da categoria: trata-se da Rotisseria Sírio e Libaneza (com “z” mesmo). Como o nome indica, não se trata propriamente de um restaurante, mas de um lugar para se comer rapidamente, ou levar para casa. Há, porém umas mesinhas que permitem uma refeição confortável com itens pedidos à parte. Com kafta, repolho recheado etc ou não, nunca pode faltar o sabor da grande especialidade da casa: as esfirras, de carne, frango, verdura e queijo.
Outro reduto árabe no Rio é Copacabana, importante bairro para a colônia libanesa da cidade, onde estão lugares icônicos, como o Baalbeck e o Amir, além do Basha. O Baalbeck, inaugurado em 1959, é algo similar à Rotisseria, um lugar para refeições rápidas, ou para levar para casa. Sendo que ali, diante da nobreza da Galeria Menescal, só é possível comer de pé, as mesas são altas. O balcão vive cheio, e a fila geralmente tem gente, quando não tem muita gente. A esfirra faz valer qualquer esforço. Detalhe que faz diferença: os molhos, feitos na casa. São incríveis. Cuidado com a pimenta.
Não muito longe dali está o Liba, que fica na parte externa do Shopping Cidade de Copacabana. Olhando assim, até passa despercebido. Porém, é um lugar imbatível para se fazer uma refeição árabe, boa, bonita e barata. Você escolhe os itens à parte, e monta o seu prato, com três, quatro ou cinco itens. Uma sugestão: coalhada seca, cafta de carne, arroz com lentilhas e cebola frita e abobrinha recheada, por exemplo. Vale muito a pena.
O Amir é um patrimônio de Copacabana, endereço árabe obrigatório, que funciona em vários dias, horários e situações. Desde um pós-praia com esfirras, pastinhas, quibes, pão árabe e sanduíches: a janelinha para a rua permite que se veja o preparo do shawarma, que é um dos carros-chefes da casa – justificadamente. O cardápio é vasto, tem combinados, para até seis pessoas. Outro item importante são os grelhados na brasa, e os pratos com cordeiro, de modo geral (consulte a disponibilidade).
Perto dali está o Basha, que é uma dissidência do Amir. Não entramos em questões societárias, e gostamos muito dos dois. O Basha tem algo interessante, que é servir pratos que são pouco comuns em restaurantes, como muhammara (pasta de pimentão, nozes e mel de romã), peixe assado na brasa à moda libanesa (já provou?), com tempero especial do chef Nicolas Habre, servido com molho taratour (pouco picante, informam), e o shish baraik (uma espécie de capeletti recheada com carne moída cozida em coalhada (é sensacional!).
Falando em shish barak, outro lugar em que podemos apreciar esse prato é na Casa Mohamed, em Ipanema. Ali, no almoço, o sistema é de bufê, muito bem montado, e sempre reposto, o que garante o frescor. Servem uma comida árabe de alto nível, que funciona para um almoço leve, rápido e saboroso, mas que também permite uma tarde preguiçosa, apreciando calmamente os muitos itens do bufê bem montado. Tem menu à la carte, no jantar, com especialidades como o shacrie, que é uma espécie de estrogonofe, feito com coalhada. Os doces são um capítulo à parte.
No Leblon, o Baduk explora a cozinha do Oriente Médio, como um todo, e tem cardápio pan-arábico. Os pratos passam por vários países da região, com uma abordagem original, onde podemos pedir, por exemplo, um tempurá de couve-flor com toque de açafrão-da-terra e coalhada; varêniques de baroa e cogumelos; e o sabich, um sanduíche de origem iraquiana, de berinjela frita com ovo, molho com manga e especiarias, babaganuj, tomate e picles, no pão folha (ou pita). Acabaram de lançar um brunch, nos fins de semana, além de novos pratos, como o shakshouka de camarão, agora também no menu fixo, assim como o gefilte fish de salmão em tempurá.
Perto dali está o Arab, com menu à la carte e em sistema de rodízio, e um bufê de almoço, bem completo.
Já o Haz passou por reforma, e ganhou uma consultoria do chef Ricardo Lapeyre, que deu uma repaginada no menu, incorporando o Mediterrâneo, como um todo, indo do Oriente Médio á Espanha. Assim, hoje podemos pedir uma bela salada grega, ou polvo à galega, além de um crudo de atum com coalhada. Os salgados continuam lá, assim como as pastas, o falafel e outros. A kafta se renovou, e agora grelhada em um espeto de canela, que deixa um rastro de sabor bem característico.
Chegando à Barra, lembramos do Almanara, um dos árabes mais importantes e tradicionais de São Paulo, fundado em 1950, com algumas 12 lojas na capital, além de mais duas, em Campinas e Alphaville. Em 2022 a marca chegou ao Rio, montando uma bonita e espaçosa filial, no Barra Shopping, que vive bem movimentada, e sempre com filas nos fins de semana. Mais uma prova de que o carioca ama comida árabe.























