Oficialmente o Bracarense existe desde 7 de abril de 1961, registro mais antigo desse bar icônico do Leblon na Junta Comercial. Quem diz é Kadu Tomé, neto do sócio que tornou famoso mundialmente esse botequim tradicional, que ganhou fama pelos seus bolinhos e empadas espetaculares, além do chope historicamente impecável, tirado na pressão pelo Dirceu, pelo Seu Antônio e equipe há décadas. São 40 anos de bons serviços prestados.

“Tem registros da existência do Bracarense dos anos 1940, porém usamos 1961 que é o mais antigo documento que tivemos acesso”, lembra Kadu, que aos 15 anos começou a assumir a gestão do bar, preservando a sua identidade ao mesmo tempo em que também fazia suas criações e adaptações.

No fim dos anos 1990 o Bracarense se tornou o bar mais badalado da cidade. Era um tempo em que não havia tanto glamour nos pés-sujos do Rio, cuja frequência era de trabalhadores da construção civil, porteiros e domésticas, além de alunos do Colégio Santo Agostinho, ali ao lado, no caso do Bracarense. E também moradores locais do bairro, e alguns artistas, escritores e jornalistas, incluindo nomes como o ator Antônio Pedro, o cartunista Jaguar e repórteres bons de copo.

“Meu avô chegava às 5h pra assar o pernil e abria o bar às 7h. Servia média com pão com manteiga na chapa, salgadinhos e refeições populares”, lembra Kadu.

Só havia bancos no balcão, os tamboretes, e o bar não disponibilizava mesa nem cadeira aos clientes. Havia barris de chope que serviam de apoio para copos e pratinhos, de modo improvisado. Até que alguns moradores do Leblon, que gostavam de beber depois da praia, resolveu comprar mesinhas de camping e cadeiras dessas dobráveis que vemos nas areias cariocas, e mais recentemente em alguns bares quando ocupam as calçadas. Pois esse hábito teria nascido ali no Bracarense, com os clientes sendo eles mesmos os donos de seus assentos e lugares para colocar a bebida, sentados do lado de fora do bar. Ficava tudo no sótão, e quando o cliente chegava ele pedia o seu kit de conforto, cadeira e mesinha.

Havia quem pedisse o assento, mas os funcionários gentilmente explicavam que eles tinham donos, mas muitos não engoliam bem essa história, que era, de fato, a mais pura verdade.

Nessa mesma época alguns fatores contribuíram para a fama do Bracarense correr o mundo. Os jornais e revistas, como a Veja Rio, O Dia e O Globo, começaram a realizar seus prêmios gastronômicos. Além disso, o lançamento do Guia Rio Botequim ajudou a dar prestígio e relevância cultural a essa instituição carioca que são os bares e restaurantes tradicionais e populares, hije tão valorizados pelos locais e pelos turistas. Nesse tempo, o Bracadense dominava as premiações. Ganhava o título de melhor bar, de melhor chope, de melhor petisco, o lendário bolinho da Alaíde, cozinheira de mão cheia, que fazia o seu salgadinho de massa de aipim com recheio de camarão e Catupiry, receita que até os dias de hoje é o grande clássico da casa, a estrela maior da estufa que abriga ainda outros delícias como as empadas, os bolinhos “Gente Boa”, de jiló com linguiça, torresmos, pernis, e outras carnes de longo cozimento típicas dessas vitrines aquecidas, como tender, que viram porções, com pão francês cortadinho, ou sanduíches, e ainda refeições honestas como sempre, e saborosas igualmente. Há bolinhos de bacalhau, e de feijoada, além de combinações como massa de polenta recheada com porco e de abóbora com carne-seca.

Apesar de muito pequena, a cozinha do Braca, como chamam os mais íntimos, é grandiosa. Dela saem, além dos acepipes e petiscos já lembrados, gostosuras como caldinho de bobó de camarão, caldinho de mocotó desses que são dignos de aplauso. Podemos pedir frango à passarinho, pernil acebolado, vinagrete de lula, carne seca com aipim, camarões ao alho e óleo e outros clássicos do gênero. Refeições são generosas e substanciosas.

A pimenta da casa tem rótulo próprio e é das mais respeitáveis. Deveria ser vendida como produto de luxo, que ajuda a construir a imagem do Bracarense como botequim de alto gabarito (pimenta da casa boa é quesito importante de um estabelecimento raiz, como se diz).

Tem almoço executivo de segunda a sexta, das 11h às 15h. Como tem que ser em casas do ramo.

O Bracarense fez sutil reforma no interior. A varanda na calçada ganhou cobertura de vidro, e as mesas vivem lotadas, sobretudo a partir do fim de tarde, e nos fins de semana. Agora podemos desfrutar do Braca mesmo em dias de chuva. Sem perder a sua identidade forjada desde 1961, ou desde a década de 1940, sabe-se lá, o Bracarense vai aos poucos se tornando ainda melhor. Mas, tudo como antes.

Endereço:  Rua José Linhares, 85 - Leblon, Rio de Janeiro
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