Numa esquina nada óbvia da Praça da Bandeira nasceu um dos maiores restaurantes do Brasil. E talvez um dos mais honestos. O Aconchego Carioca nunca precisou de holofote. Sua luz própria vem da panela. Ali, a chef Kátia Barbosa fez o impossível: transformou feijoada em petisco e fez disso um marco. O bolinho de feijoada não é apenas delicioso. É um emblema. Crocante por fora, cremoso e intenso por dentro, recheado com couve e coroado com torresmo. De quebra, ainda chega acompanhado de uma batidinha de limão. A síntese perfeita da cozinha de Kátia: popular, autoral e fiel às raízes.
Fundado em 2002 pelo irmão e pela ex-cunhada, o Aconchego nasceu pequeno, com Kátia dividindo o tempo entre a cozinha e o salão, numa época em que a Praça da Bandeira ainda era pouco conhecida. Mas bastaram os primeiros bolinhos, os primeiros caldos encorpados e as moquecas fumegantes para que a notícia se espalhasse. Logo jornalistas, chefs e curiosos cruzavam a cidade atrás daquele sabor que não se explica, só se prova. A culinária nordestina, ou melhor, a “comida popular brasileira”, como ela mesma define, ganhou um lar no coração do Rio, servida com técnica intuitiva e afeto. E foi ali, entre mesas de madeira e panelinhas de barro, que tradição virou desejo e a comida de botequim subiu de patamar sem perder a essência.
A cozinha de Katita (como é carinhosamente chamada) é simples, mas nunca simplória. O bolinho de arroz com curry e queijo minas padrão chega cremoso, derretendo. O escondidinho de carne de sol coberto com purê de aipim e leite de coco, acompanhado de farofa de bacon e feijão-de-corda, entrega o Nordeste em uma bocada. A moqueca de palmito-pupunha com banana-da-terra é uma aula de equilíbrio que conquista até quem não é vegetariano. E o camarão no coco, perfumado e servido sobre batata baroa, é daqueles pratos que abraçam, feito para comer de colher.
Os prêmios vieram naturalmente: primeiro bar carioca indicado no Guia Michelin, menções e premiações constantes na Veja Rio, chef jurada de reality gastronômico. Kátia viajou o mundo, foi aplaudida por Bottura, palestrou na Dinamarca. Mas nunca saiu da Praça da Bandeira. E, quando você entra ali, ela ainda te recebe como quem serve o prato na cozinha da família. Cerveja gelada, voz alta, alegria espalhada. Sem frescura.
E é por isso que quem vai, volta. Porque ali a comida não é só gostosa. É identidade. É aconchego. É sabor que emociona.
Endereço: Rua Barão de Iguatemi, 245 - Praça da Bandeira, Rio de Janeiro Siga: @aconchegocariocarj























