Há 30 anos poucos restaurantes cariocas tinham sommelier. Nos primeiros anos da profissão, que só foi regulamentada no Brasil em 26 de agosto de 2011, data em que se comemora o Dia do Sommelier no país, os homens dominavam completamente o mercado – uma exceção era Deise Novakoski, pioneira não apenas no Rio, mas na América do Sul, podemos dizer. Como ela mesma diz: “É sommelière e bartender desde quando tais palavras não faziam parte dos verbetes de gastronomia”. Nos anos 1980 ela se destacou trabalhando em casas que fizeram História no Rio, como o Mistura Fina, e depois passou por restaurantes de renome, como o Eça, e deu consultoria para rede de supermercado. Ainda hoje atua com relevância no setor, através de aulas, treinamentos, palestras e degustações.
Já quando foi promulgada a lei, no começo da década passada, as mulheres já se destacavam, tomando conta das cartas de vinhos, da adega e do serviço em muitos dos melhores restaurantes do Rio. Cada vez mais elas são mais premiadas e reconhecidas como grandes nomes do ramo.
Uma das mais experientes dessa turma de sommelières que são muito importantes na cena gastronômica atual do Rio, Elaine Oliveira é colunista da revista Marie Claire , e tem passagem por vários restaurantes importantes da cidade.
– Eu comecei na gastronomia sem imaginar que o vinho viraria a minha vida. Entrei como hostess no extinto Bar d’Hotel, no Marina All Suites, no Leblon. Ali eu tive meu primeiro mergulho real no universo da gastronomia. Trabalhei com a chef Danielle Dahoui e aquilo foi uma escola para mim. Foi ali que eu realmente me apaixonei pela gastronomia, pelo rigor, pelo cuidado com o detalhe, pela energia da cozinha e do salão. Tudo o que ela me ensinou ficou comigo. Depois fui trabalhar com o Marcelo Torres no Zozô, na Urca, como gerente geral do restaurante. Em seguida, fui para o antigo Giuseppe Italiano do Leblon e, nesse momento, decidi que não queria mais continuar na gerência, porque dentro de mim já havia alguma coisa mudando. Eu observava os clientes, a reação deles quando provavam um vinho especial, a força que uma garrafa tinha à mesa. Comecei a estudar e a provar com mais atenção e a pensar seriamente em me tornar sommelière. Naquela época, quase não existiam mulheres atuando na profissão no Rio. Aliás, só havia uma, Deise Novakoski. E isso, ao invés de me intimidar, me provocou. Eu queria ocupar esse espaço. E, sendo assim, todas as sommelières ativas hoje no Rio de Janeiro vieram depois de mim. O Marcelo, generoso e visionário, me deu a oportunidade de assumir o posto como sommelière no Giuseppe Grill Leblon, que ficava ao lado do Italiano, mesmo antes de eu estar formalmente formada. Era uma das cartas mais premiadas do país. Ele me disse que sabia que eu não o decepcionaria. Aquilo me desafiou e mudou o rumo da minha história. Comecei ali oficialmente minha carreira no vinho, há 19 anos. Depois de anos no Giuseppe, fui gerente nacional da Villa Francioni, que naquele momento era a vinícola mais importante do Brasil. Rodei o país falando de vinho brasileiro para brasileiros, que naquela época consumiam muito pouco vinho nacional, dando aulas, treinamentos e palestras. Foi uma escola imensa. Em seguida, trabalhei como sommelière em importadoras como a Zahil e a Decanter, aprofundando ainda mais meu repertório. Em 2015, lancei um livro de bolso sobre vinhos com você (eu mesmo, Bruno Agostini, autor dessa reportagem muito gostosa de se fazer), que sigo vendo nas lojas até hoje e que me enche de orgulho. É um guia direto, acessível, feito para aproximar as pessoas do vinho, que sempre foi o que eu quis fazer. Há nove anos recebi o convite da Roberta Malta, então editora-chefe da Marie Claire, para assumir uma coluna de vinhos e enoturismo na revista. Sou profundamente grata a ela por ter acreditado em mim. A Boa de Copo nasceu ali e se tornou um espaço potente de conversa com mulheres que querem entender de vinho sem formalidades, sem pedantismo, com prazer. É um trabalho do qual eu me orgulho todos os dias. No início da pandemia, há seis anos, abri com meu marido, Mário, a Amai Vinhos, uma loja de vinhos on-line onde a gente atende o Brasil inteiro e construiu uma relação muito próxima com os nossos clientes. Assino cartas de vinhos em restaurantes no Rio, algo que eu amo fazer, mas só em lugares com os quais eu me identifico de verdade. Muitos acabam virando parcerias de longa data, consultorias contínuas. Sou professora de vinhos na Le Cordon Bleu no Rio e também tenho o meu projeto próprio de aulas que dou em diferentes restaurantes da rede BestFork, novamente ao lado do Marcelo, que lá atrás acreditou em mim e hoje é parceiro e amigo. Viajo o mundo visitando vinícolas, conhecendo produtores e vivendo experiências que depois transformo em histórias. Escrevo para a Marie Claire sobre os melhores vinhos, roteiros, os hotéis que valem a viagem, as regiões que me marcaram e os produtores que eu mais gosto de visitar. E também produzo conteúdo para o meu perfil Boa de Copo no Instagram, onde compartilho essas descobertas de forma leve e direta. Agora, essa mesma energia ganhou um novo espaço e em abril lanço o canal Boa de Copo no YouTube, ampliando ainda mais essa conversa sobre vinho e enoturismo, sempre na minha linguagem descontraída. Quando eu olho para trás, vejo uma trajetória construída com trabalho duro, estudo, intuição e coragem de ocupar espaços que não estavam dados. O vinho me escolheu tanto quanto eu escolhi o vinho. E eu sigo todos os dias honrando essa escolha.
Outra profissional de destaque há muitos anos no mercado é Gabi Teixeira, que já soma 15 anos atuando como sommelier: antes, era nos palcos de teatro.
– Eu antes era atriz. Meu histórico é bem, digamos, eclético. Com 17 anos eu entrei na Faculdade de Direito, foi a minha primeira faculdade. E eu trabalhava já como atriz, porque comecei como modelo fotográfico com 12 anos. E continuei trabalhando nisso até os meus 25. Foi quando eu meio que enchi o saco desse meio. Já tinha terminado a faculdade, mas também não queria trabalhar como advogada, e resolvi migrar de carreira. Então, eu me inscrevi na faculdade da Unirio de Gastronomia, era um curso que existia dentro da curso de Nutrição. Simultaneamente ao curso de Gastronomia, eu comecei a fazer ABS para profissionais. E eu vi que, apesar de eu amar cozinhar, eu gosto de fazer isso para os meus amigos. A rotina da cozinha não era algo que eu queria fazer. Mas, eu me apaixonei pelo vinho, pelo salão, e aí isso se tornou realmente o meu foco. Meu primeiro emprego foi com o Duda Zagari, da Confraria Carioca. Depois eu trabalhei por algum tempo na Cavist de Ipanema. E em seguida eu fui para a Bottega del Vino, onde fiquei ao todo oito anos, com um intervalo de um ano no Giuseppe Grill, do Leblon. Nesse período, eu ainda me formei em Marketing. Daí, nos anos antes de abrir o Belisco, eu trabalhei um tempo fazendo venda direta para restaurantes, com a Europa Importadora. Durante algum período eu representei três importadoras ao mesmo tempo, a Wine Lovers, a Família Kogan e a própria Europa. Hoje em dia, além de representar a Europa, eu dou aula para o curso de profissionais da ABS, junto com o Alain Inglês e o Ivo Árias, e a Marina Garritano, fazemos parte do time de professores que dão aula de vinhos orgânicos, naturais e biodinâmicos para os profissionais em formação. Falando nisso, tenho formação completa da ABS de profissionais, e tenho Wset (diploma com reconhecimento profissional) 1, 2 e 3, e agora estou fazendo o nível, minhas provas vão ser em setembro desse ano, em São Paulo. Acho que hoje tem muitas mulheres no mercado que eu admiro. Desde que comecei esse mercado deu uma crescida muito grande.
Sua colega de curso para profissionais na ABS, Marina Garritano se destacou no Copacabana Palace, antes de ir gerenciar a Coltivi, em Botafogo, onde implementou uma carta de vinhos naturais. Hoje ela dá aulas e consultorias, e atua na área de vendas da Decanter, uma das maiores importadoras de vinhos do país.
– Eu comecei trabalhando na área de AeB por acaso da vida, era pra ser temporário e acabei me encantando com a hospitalidade. Meu primeiro trabalho pra valer na área foi no Mee, no Copacabana Palace. Onde aprendi muito sobre serviço e hospitalidade, e conheci um sommelier, que me apresentou o mundo do vinho. Através dele entrei na ABS e fiz o curso de formação de profissionais la. Depois do hotel, eu trabalhei na Coltivi, onde tive experiencia com gerenciamento de equipe e restaurante, e com eventos também. Fiz a formação pelo WSET em vinhos. Em 2021 fui convidada pela ABS para integrar o quadro de docentes, onde colaborei com o desenvolvimento da matéria de Orgânicos, Naturais e Biodinâmicos, junto a um grupo de profissionais incríveis e onde ministro aulas até hoje. Fui finalista em Portugal do Melhor Sommelier Brasileiro em Vinhos do Alentejo em 2024. E fazem 3 anos que mudei de área dentro do vinho, e passei a atuar como Executiva de Vendas da importadora Decanter Vinhos. O Brasil tem profissionais maravilhosas na área do vinho – conta Marina.
A mais nova profissional de renome em terras cariocas já chegou com fama de ser uma das mais competentes do Brasil. Na verdade, trata-se de uma dupla dinâmica, formada por Dani Bravin e Cássia Campos, da Sede 261, em São Paulo. No fim do ano passado elas foram contratadas para fazer as cartas do Elena e do Eleninha, no Horto.























