Em 2024 a sommelière Maíra Freire, do Lasai, conquistou o primeiro prêmio Michelin concedido a profissionais do vinho, consolidando a sua posição de destaque no setor, onde atua em várias frentes: no salão do restaurante propriamente, e também atuando em trabalhos de consultoria e treinamento, além de organizar eventos e feiras de vinho. O Oro, assim como o Lasai, também ostenta duas “étoiles” do respeitado guia francês. Do mesmo modo, quem cuida da adega e do serviço da bebida é outra mulher, a argentina Cecília Aldaz, profissional premiada, que tem programa de TV, e se formou em enologia em Mendoza. Há cerca de 20 anos, primeiro de modo tímido, mas depois dominando esse ofício até então quase exclusivo dos homens, as mulheres tomaram conta das adegas cariocas, com competência, carisma e simpatia.

No fim do ano passado, a cidade ainda ganhou um belo reforço, vindo de São Paulo: a dupla dinâmica Daniela Bravin e Cássia Campos, que juntas desenvolveram as cartas do Elena e do Eleninha, no Horto – numa seleção de rótulos que pode ser chamada de especial: por ser adequada ao menu; por ter raridades muito bem garimpadas, incluindo safras antigas; por ser bem organizada e, finalmente, por ter bons preços, e boas opções em taça – ou seja, uma seleção que nem precisa ser vasta para ser completa.

Começamos hoje uma série de reportagens, contando as histórias dessas profissionais que – não é exagero dizer – estão fazendo uma revolução na gastronomia carioca através do vinho. São nomes como Elaine de Oliveira, Gabriela Teixeira e Jade Mayworm (essa última especialista em saquê, que no fim de 2025 fez uma expedição ao Japão para aprimorar os conhecimentos). Hoje falamos com Maíra Freire e suas duas pupilas, Marcela de Genaro e Adriane Maurici.

— Eu ingressei na área de gastronomia um pouco mais tarde, quando eu tinha uns 30 anos. Comecei trabalhando em São Paulo, onde fiz o curso da ABS, até que fui convidada para vir para o Rio, gerenciar o Zazá. Até que eu soube que ia aparecer uma vaga de sommelier no Lasai. Eu já estava desde 2025 só com vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais. E então no dia 1º de janeiro de 2017 eu entrei no Lasai, e foi um novo desafio, enorme. Foi quando comecei a fazer viagens, para visitar produtores. Aí, eu comecei a fazer algumas atividades fora. Então, lancei a feira de vinhos naturais Primeira Taça, junto com a Manu Zappa, do Prosa na Cozinha. Primeiro, para a gente se divertir, e fazer uma coisa que a gente gosta: trazer produtores e importadores que a gente gosta, e trazer isso para o Rio. E a feira foi crescendo, está muito legal, a gente se orgulha. Fiz algumas consultorias, cartas de vinho, como para o Trégua, quando querem mudar a carta eu faço a seleção. E tem o Libô Comida e Vinho, que começou há um ano e meio atrás. A Roberta Ciasca e a Renata Gebara me convidaram para fazer a curadoria dos vinhos do bar, que é uma coisa que eu estou tocando junto com elas, muito legal. Agora, tenho um novo projeto, que eu amo, junto com a Marcela de Genaro, de fazer festas com vinhos. Fizemos a primeira edição lá no Fatchia chamado Boogie Wines, e a gente vai fazer uma segunda edição agora dia 15. A gente seleciona vinhos que a gente gosta, diferentes, divertidos, que a gente acha que tem cara de pista de dança, para a gente vender em taça, com preço legal. A ideia é colocar o vinho em lugares diferentes. Eu gosto muito do trabalho da Marcela, que está no Trégua. Gosto muito da maneira irreverente como ela trabalha, a maneira divertida como ela coloca o vinho. Uma coisa muito contemporânea, com espontaneidade, autenticidade, acho que essa é a grande chave da gastronomia atualmente – diz Maira Freire.

Marcela de Genaro é jornalista de formação, e também faz passeios turísticos com estrangeiros pelo Rio. Com passagem pela saudosa Winehouse, pela Fabro e pela Slow Bakery, desde julho do ano passado ela está no serviço do Trégua no Telhado. Ela está à frente, ainda, do projeto Brazilian Wine Experience.

— Unindo o trabalho de sommelière e guia, tenho uma experiência itinerante de vinhos brasileiros que une Santa Teresa, história e arte de rua, com comida brasileira e vinho nacional. A experiência atende desde casais até grupos mistos ou particulares de até dez pessoas. Já apresentei nossos vinhos para estadounidenses de diferentes partes, ingleses, canadenses, gregos, alemães e até dez pessoas da Islândia – conta Marcela, que lembra a sua transição profissional, que teve uma reviravolta a partir do momento em que o vinho chegou em sua vida. – Sou jornalista e na minha “vida anterior” escrevia sobre entretenimento, direitos das mulheres e fiz assessoria de imprensa de arte, incluindo grandes shows. Nunca escrevi sobre vinho ou comida. Eu não era feliz. Fiquei cinco anos perdida. Em dezembro de 2019 fui convidada a me mudar para São Paulo para criar um Departamento de Palestras para uma agência que representava atores e criadores. Três meses depois, pandemia. Perdi o emprego, as economias e, para completar a lista, meu relacionamento terminou. Voltei a escrever, desta vez para UOL Universa. Me mudei para a Bahia, Trancoso. Para ganhar um extra, virei garçonete, algo que nunca tinha feito antes e que eu cegamente julgava. Eu achava que uma jornalista não poderia ser garçonete. É mole? No início pensei que fosse o fim da linha; achava que tinha falhado totalmente na vida, mas, na verdade, era o começo. Eu adorei. Durante o trabalho comecei a aprender sobre comida e vinho e entender a riqueza disso tudo que antes eu não enxergava. Até a minha relação com o Brasil mudou. E pra muito melhor. E eu, que me escolheria sommelière, só conhecia quatro uvas… e são 5 mil vitis viníferas. Isso mudou minha vida e abriu um novo capítulo — saboroso, cheio de história tal qual o jornalismo, mas da humanidade e do Brasil. Agora o vinho e a comida são fios condutores que me colocam em contato com pessoas de todo o tipo e, como guia gastronômica, também minha profissão, de todo o mundo — completa.

Outra profissional que vem se destacando, e que trabalha diretamente com a Maíra, é Adriane Maurici.

— Comecei no vinho no Cru Natural Wine Bar em Botafogo, em 2018. Infelizmente, fechou as portas na pandemia. Logo após a pandemia eu fiz a carta de vinhos do Pope Ipanema, passei rapidamente pelo Escama para alguns treinamentos de serviço. Fiz a carta de inauguração do Elena Horto no qual fiquei como consultora por seis meses. Dei um tempo de um ano para me dedicar aos estudos, e fui para Espanha estagiar no El Celler de Can Roca, em Girona. Quando regressei passei uma temporada em búzios prestando consultoria para um hotel. Em 2025 voltei a morar no Rio e passei a trabalhar para as casas da chef Roberta Ciasca. Fiz a carta de vinhos do Brota e Miam Miam. Atualmente trabalho em cima da carta de vinhos feita pela Maira Freire no Libô, onde faço a gestão de equipe, treinamentos e ajudo a Maira Freire.

Como se vê, o vinho no Rio de Janeiro está em ótimas mãos. A série continua amanhã, e sábado.

Parte 2

Parte 3