Maio reúne, em um intervalo de três dias, duas datas importantes para a gastronomia. No dia 10, celebra-se o Dia do Cozinheiro. No dia 13, o Dia do Chef. Cargos diferentes, mas que fazem parte do mesmo caminho dentro de uma cozinha.

Antes de assinar um menu, todo chef foi cozinheiro. É nesse percurso que se constroem técnica, repertório e consistência. É ali que o gesto se repete até virar precisão, que o ingrediente passa a ser entendido no detalhe, que a cozinha deixa de ser só execução e ganha identidade.

No Rio de Janeiro, uma nova geração tem mostrado essa evolução de forma clara. São chefs que passaram pelo rigor do dia a dia, amadureceram suas referências e hoje traduzem isso em cardápios autorais, com linguagem própria. Para marcar as duas datas, o Cidade Deliciosa reúne alguns desses nomes que vêm construindo, prato a prato, a força da cena carioca atual.

João Vitor Mello

Chef responsável pela cozinha quente do Canoa

Nascido e criado em Petrópolis, João Vitor Mello sempre soube que queria seguir na gastronomia. Iniciou a formação ainda ao fim do ensino médio e, nos primeiros anos, chegou a empreender ao lado do padrasto em uma casa de carnes no Espírito Santo. A experiência foi interrompida durante a pandemia, quando decidiu voltar para a serra fluminense e retomar o caminho dentro da cozinha.

Foi no Sítio Gastronômico, onde permaneceu por cerca de três anos, que consolidou sua base. Atuando como braço direito da chef Anna Dolezal, aprofundou técnica, ritmo de serviço e entendimento de equipe, em uma fase decisiva para sua formação. A partir dessas experiências e conexões, recebeu o convite para integrar o Canoa, no Rio de Janeiro.

Hoje, à frente da parte quente da casa, completa um ano em uma etapa marcada por amadurecimento e construção de identidade, desenvolvendo um trabalho pautado pela criatividade, pela construção de sabores e por pratos que surpreendem.

O Rio no prato

“O Rio de Janeiro está diretamente presente no que eu faço. Vindo de uma cidade onde a inovação gastronômica é mais limitada, aqui encontrei um ambiente que estimula a criatividade. A energia da cidade, a diversidade e o público aberto ao novo me dão liberdade para experimentar e construir uma identidade própria. Isso se reflete nos meus pratos, que carregam essa busca por evolução e autenticidade.”

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Julia Lottus

Chef à frente do restaurante Sult

Mineira de origem, Julia Lottus carrega desde a infância uma relação direta com a cozinha. Cresceu cercada por referências que vão do fogão a lenha à produção artesanal de alimentos na fazenda da família, experiências que moldaram sua percepção sobre ingredientes e preparo.

Aos 18 anos, mudou-se para a Austrália, onde estudou gastronomia e trabalhou por quatro anos em uma trattoria italiana. De volta ao Brasil, consolidou sua formação em cozinhas de alto nível, passando por nomes como Roberta Sudbrack e Nello Cassese, integrando a primeira equipe do chef no Cipriani, onde chegou ao cargo de chef.

Após temporadas de estudo na Itália, aprofundou sua conexão com a culinária clássica e com a produção artesanal de massas, base que hoje orienta seu trabalho. À frente do Sult, em Botafogo, vem construindo uma cozinha que equilibra técnica, tradição e leitura contemporânea, o que tem levado o restaurante a ganhar destaque de público e crítica. Em 2025/2026, foi reconhecida como Chef Revelação pela Veja Rio Comer & Beber.

O Rio no prato

“Mesmo a minha culinária sendo italiana, eu estou no Rio. Então influencia completamente na criatividade e na decisão do menu. O clima do Rio, por exemplo, me faz ser mais tendenciosa a estudar e optar por pratos do sul da Itália, que combinam com o carioca. Eu tenho muita referência da Sardenha, Puglia e Sicília.

E por mais que eu tente ser purista na cultura italiana, eu preciso adaptar pelos ingredientes que o Rio oferece. Esse é meu maior desafio e minha maior satisfação: construir pratos com ingredientes brasileiros no cenário carioca, sempre respeitando a cultura italiana.”

Siga: @julialottus

Juliana Magioli

Primeira chef mulher do Alloro Al Miramar

Após iniciar a faculdade de engenharia civil e perceber que não seguiria na área, Juliana Magioli encontrou na gastronomia um caminho mais alinhado com o que buscava. Formada pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, em 2015, iniciou a carreira em cozinhas de alto nível na cidade.

Começou como estagiária no Le Pré Catelan, no Sofitel de Copacabana, onde foi efetivada e teve contato direto com chefs experientes, em uma fase importante de formação. Em 2017, passou pelo restaurante Pipo e, no ano seguinte, integrou a equipe do Cipriani, no Copacabana Palace.

Na casa, acompanhou a conquista da estrela Michelin, em 2019, e construiu um percurso consistente ao longo de quase sete anos, passando de cozinheira à subchefia. Nesse período, participou de eventos internacionais em países como Portugal, Chile e Peru, aprofundando seu repertório técnico, especialmente na cozinha italiana, que se tornou uma de suas principais referências.

Hoje, está à frente do Alloro al Miramar, onde assina um menu que marca sua primeira experiência comandando uma cozinha. Com uma proposta baseada em intensidade, frescor e contraste de sabores e texturas, desenvolve pratos que equilibram técnica e leveza, em uma leitura contemporânea da tradição italiana.

O Rio no prato

“A cidade influencia na forma como eu penso nos pratos. O Rio de Janeiro tem esse contraste que eu amo, é intenso e marcante, mas, ao mesmo tempo, leve e delicado.

O clima mais quente, junto com a proximidade do mar, faz com que peixe e frutos do mar frescos sejam protagonistas naturais do menu. Pratos como o Peixe do dia, creme de abobrinha com hortelã e purê de alho negro, trazem essa ideia de leveza, mas com uma combinação potente e cheia de sabor.

A Grigliata mista do mar com legumes orgânicos também traduz bem isso, reunindo frutos do mar com alguns ingredientes vindos da Serra do Rio e criando esse contraste entre mar e terra. Além disso, é um prato que pode ser compartilhado, algo que conversa com esse jeito mais leve e social de comer que tem tudo a ver com o Rio.

Eu também busco esse equilíbrio dentro do menu, com opções mais estruturadas, mas sempre com uma atenção especial a pratos que tragam leveza e fluidez.”

Siga: @julianamagioli

Yan Ramos

Head Chef do restaurante Lilia

A trajetória de Yan Ramos na gastronomia começou longe da cozinha. Em 2013, ingressou na UERJ para estudar Atuária e atuava com análises estatísticas voltadas ao setor previdenciário. Paralelamente, manteve o interesse pela gastronomia, chegando a abrir um pequeno negócio próprio. A decisão de mudar de área veio com a percepção de que precisava de formação técnica para avançar.

Ao migrar para a gastronomia profissional, passou por cozinhas no Rio e em São Paulo, com experiências em casas como TanTan, Puro, Sal Grosso Gastronomia, Quitéria, no Ipanema Inn, Lasai, Grupo Lilia e Labuta Mar. Ao longo do percurso, ocupou diferentes posições na cozinha, do estágio à chefia, construindo uma base sólida tanto na operação quanto na gestão.

Hoje, comanda a cozinha do Lilia, restaurante que integra o guia de indicados do Michelin, onde desenvolve um trabalho guiado pela valorização do produto, pelo desenvolvimento da equipe e pela construção de um ambiente de alto desempenho, em que técnica e coletivo caminham juntos.

O Rio no prato

“Diversas criações são influenciadas pelos produtos do nosso estado, valorizando o produtor local e utilizando pescados da nossa costa, favorecendo a economia da nossa cidade.”

Siga: @yan2r

Aos chefs e cozinheiros do Rio de Janeiro, nosso reconhecimento. Com técnica e sensibilidade, vocês levam um pouco da cidade em forma de afeto para cada prato. Parabéns por fortalecer a gastronomia da nossa Cidade Deliciosa!