Verdadeira instituição carioca, funcionando num ponto de localização privilegiada, o Bar Urca é um endereço histórico, que se define assim: “Desde 1939, a esquina mais amada do Brasil”. Eu iria além: é a esquina, e a mureta, mais amadas do Brasil. Declarado Patrimônio Histórico, Cultural e Turístico do Estado do Rio, pelo governo do Estado, e Patrimônio Cultural Carioca, é um dos poucos endereços a ostentar a duas honrarias – muito merecidamente, que se diga.

Seu nome completo diz muito precisamente do que se trata o lugar: Bar Urca Restaurante. É isso mesmo. São dois ambientes com propostas e atmosferas completamente diversas. No térreo, com vista para a Enseada de Botafogo e seus barquinhos de pescador, está o bar, um legítimo botequim carioca, que não tem e nunca teve mesas. Bastam várias geladeiras, uma estufa repleta de delícias e um balcão, onde os clientes fazem os pedidos, e pagam. Isso porque do outro lado da Rua Cândido Gaffrée está a tal mureta, que serve de mesa, banco e balcão, provavelmente o maior balcão do mundo. É ali onde a clientela se senta, bebe seus chopes e cervejas e saboreia salgadinhos, petiscos e as famosas canoas, que são porções em versão aperitivo de pratos como o bobó de camarão, sucesso também no salão do restaurante.

Falando nele, subindo as escadas damos de cara com o restaurante propriamente dito. Ali, a coisa muda de figura completamente. Tem ar-condicionado, paredes repletas de fotos, diplomas, condecorações, reportagens e outras lembranças, e e somos agraciados pelo panorama da enseada, de suas amplas janelas envidraçadas. E o lugar assume de vez um pouco mais do seu DNA português que vem da família Gomes. Herança genética que não vem desde a sua origem: foi em 1972 que o Seu Armando Gomes comprou o negócio, ainda com o nome de Bar Tabajaras. Querido pelos frequentadores, Seu Gomes morreu em 2012, mas deixou a casa em ótima mãos. Hoje ele está representado por seu filho de mesmo nome, e os netos, Rodrigo e Armando – a terceira geração no negócio (eles estão sempre por lá).

– Desde 1972 está na gestão da família Gomes, quando foi comprado de alemães que retornaram à terra natal pelo meu avô. Se Chamava Bar Tabajaras, mas não lembro quando mudou o nome – diz Rodrigo, que cuidou da parceria com a cervejaria Backbone para a recente criação de três rótulos próprios, uma IPA, uma Hop Lager e uma Session IPA zero álcool.

Mas, e o que comer em cada em cada um dos dois ambientes?

No bar, as especialidades são o bolinho de bacalhau, que existe ainda numa versão criada por eles, com queijo e linguiça, chamada bolinho da Terrinha; a sardinha e o polvo à vinagrete, evocando a identidade lusitana. Mas, tem muito de Brasil nesse local, e podemos pedir caldinhos (de feijão, de frutos do mar e de camarão), casquinhas de siri, lula à dorê, linguiça acebolada, empada de palmito (e também de camarão, de siri, de frango e de queijo), gurjões de frango, filé aperitivo e o camafeu de camarão, um bolinho recheado de camarão e Catupiry.

No segundo andar o cardápio continua sendo luso-brasileiro. Ali encontramos, literalmente, tudo o que é servido no térreo, e muito mais! Tem pratos executivos, que na verdade são versões individuais – porque restaurante português que se preze serve pratos em tamanho família, para duas ou três pessoas – pelo menos. É assim que os pratos de bacalhau são apresentados no alentado menu: “Servem 2 a 3 pessoas”. Tem à Brás, à Gomes de Sá (nada a ver com os donos, que se diga, mas muito bem servido, como era de se esperar), à moda (desfiado, com cebola, tomate, pimentão, ovo e batatas coradas) e o chamado Vovó Maria, uma posta cozida com tomate, cebola, alho, pimentões, brócolis, batata, couve e arroz branco).

Eu destacaria, ainda, a seção dedicada aos frutos do mar, e aos peixes. Quer dicas? O polvo grelhado ao alho com arroz de brócolis (ou o arroz de polvo com brócolis, para quem gosta da combinação), bobó de camarão e camarão na moranga; além de filé de peixe à belle meunière, e ao molho de camarão, aconchegante daquele jeito que a gente gosta, com purê e arroz.

Para encerrar, quindim, ovos moles, pastel de nata e toucinho do céu. Afinal, os doces conventuais portugueses são mesmo divinos.

Endereço: R. Cândido Gaffrée, 205 - Urca, Rio de Janeiro
Siga: @barurca